Segundo informações da própria empresa e de órgãos públicos, cerca de 215 milímetros de chuva caíram no fim de semana, sendo aproximadamente 101 milímetros concentrados em apenas duas horas e meia nas áreas mais elevadas das minas — volume classificado como extremo para a região.
Mina de Fábrica
O primeiro incidente foi registrado na madrugada de domingo (25), na Mina de Fábrica, localizada na Serra dos Pires, em área limítrofe entre os municípios de Congonhas e Ouro Preto. Apesar de a estrutura estar situada em território de Ouro Preto, os impactos ambientais atingiram diretamente áreas pertencentes a Congonhas.
De acordo com a Prefeitura, não houve rompimento de barragem. O episódio envolveu o extravasamento de um dique do tipo SAMP, estrutura destinada à drenagem e ao armazenamento temporário de água da chuva e sedimentos da atividade minerária.
O extravasamento provocou uma onda de lama que atingiu a unidade Pires, da CSN Mineração, invadindo oficinas mecânicas, almoxarifados e áreas de embarque. A água barrenta também alcançou áreas verdes e cursos d’água, como o córrego Goiabeiras. Equipes da Defesa Civil, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e técnicos da Prefeitura estiveram no local ainda nas primeiras horas da manhã para avaliação dos danos.
Mina de Viga
O segundo episódio ocorreu entre a noite de domingo (25) e a manhã de segunda-feira (26), na Mina de Viga, localizada integralmente em Congonhas, entre as regiões de Plataforma e Esmeril. Segundo a Polícia Militar de Meio Ambiente, uma estrutura de captação de água transbordou devido ao excesso de chuvas, atingindo outras estruturas em níveis inferiores e provocando um efeito em cadeia.
A água com sedimentos invadiu áreas internas da mineradora, como almoxarifados, pátios, rodoviária interna e galpões, além de destruir completamente o acesso da portaria principal. O escoamento seguiu em direção ao córrego Maria José, afluente do rio Maranhão, com possibilidade de alcançar o rio Paraopeba.
Apesar da gravidade ambiental, a Defesa Civil informou que não houve registro de feridos, comunidades atingidas ou bloqueio de vias. Os danos foram classificados, até o momento, como exclusivamente ambientais.
Estruturas SAMPs sob apuração
Em reunião com representantes da Vale, foi informado que a Mina de Viga possui 184 estruturas do tipo SAMP em operação, a maioria de pequeno porte. Ainda não há confirmação sobre quantas foram diretamente afetadas nem o volume total de água liberado.
Durante vistoria conjunta, foram identificados pontos de erosão próximos aos poços e estruturas completamente cheias de sedimentos, indicando escoamento com grande força. A Polícia Militar de Meio Ambiente informou que a fiscalização segue em andamento para apurar danos ambientais e possíveis responsabilidades.
Em nota, a Vale afirmou que os episódios foram causados por extravasamentos de água com sedimentos em decorrência das fortes chuvas e reiterou que não houve qualquer relação com barragens de rejeitos. A empresa informou ainda que as barragens da região permanecem estáveis e são monitoradas 24 horas por dia.
Suspensão de alvarás
Diante dos episódios, a Prefeitura de Congonhas suspendeu, nesta segunda-feira (26), os alvarás de funcionamento da Vale nas minas de Viga e Fábrica. A decisão foi tomada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas e impede a realização de atividades econômicas, como a emissão de notas fiscais.
Segundo o secretário municipal João Luís Lobo, a medida tem caráter preventivo e condiciona qualquer retomada das atividades à adoção de medidas rigorosas de compensação e controle ambiental. Entre as exigências estão a apuração detalhada dos danos, o monitoramento da turbidez da água, a avaliação dos impactos sobre a fauna e a apresentação de laudos de estabilidade e segurança das estruturas SAMPs.
O prefeito Anderson Cabido criticou a falta de transparência da mineradora e afirmou que o episódio evidencia falhas de manutenção. Segundo ele, eventos climáticos extremos são previsíveis e não justificam falhas em estruturas projetadas para conter sedimentos e controlar o escoamento.
Atuação federal e repercussão
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, determinou que a Agência Nacional de Mineração (ANM) realize fiscalização rigorosa e apure responsabilidades, com possibilidade de interdição das operações, caso sejam constatadas irregularidades.
Os episódios ganharam repercussão regional e nacional e reacenderam o debate sobre a segurança da mineração em Minas Gerais. As ocorrências coincidiram com os sete anos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, tragédia que matou 272 pessoas e segue como marco de alerta para o setor.
As equipes da Prefeitura de Congonhas permanecem em campo monitorando as áreas afetadas, especialmente diante da previsão de novas chuvas, enquanto novas avaliações técnicas devem embasar decisões administrativas e judiciais.
